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Oriente Médio na atualidade

Posted in Geopolítica on 25 de outubro de 2009 by Marcos Brandão

MAIS OBSTACULOS À PAZ

(Guia do Estudante, 2010, p. 66)

Novo governo israelense defende posições consideradas inaceitáveis pelos palestinos, que, por sua vez, se dividem em um grave conflito entre suas principais organizações.

Mapa de Israel e Palestina

As Colinas de Golã são um ponto estratégico que possui excelentes recursos hídricos. Israel capturou o território da Síria em 1967 (na Guerra dos Seis Dias) e anexou-o em 1981. Alguns colonos israelenses vivem aqui e desenvolveram a região para o turismo. A Síria se recusa a aprovar qualquer acordo de paz ou a normalização das relações com Israel a menos que as colinas sejam devolvidas ao controle sírio (fonte: BBC Brasil).

Quando se examina o sangrento e prolongado conflito entre Israel e os palestinos, a impressão é que a situação não para de se complicar. Após décadas de tentativas infrutíferas de acordos de paz, há uma situação de impasse sem precedentes. Do lado israelense, o novo governo do primeiro-ministro Benyamin Netanyahu defende posições que os palesti­nos consideram inaceitáveis até para iniciar conversações. No campo palestino, há uma séria divisão entre as duas principais orga­nizações: o grupo laico Fatah – que dirige a Autoridade Nacional Palestina (ANP), instalada na Cisjordânia-e o grupo islâmico Hamas – que controla a Faixa de Gaza.

O cotidiano de quem vive nessa parte do mundo é marcado por mortes e destruição. O último conflito aberto ocorreu no fim de 2008, quando Israel iniciou uma ofensiva à Faixa de Gaza, com fortes bombardeios e ataques terrestres, que causaram, em três semanas, mais de 1,4 mil mortes. A ofensiva agravou a situação de desastre humanitário existente no território por causa do bloqueio imposto por Israel, que impede a entrada ou saída de pessoas e mercadorias.

Problemas não resolvidos

Para entender essa situação, é preciso recuar no tempo. O marco desse conflito foi a criação do Estado de Israel, em 1948, que provocou a expulsão de milhares de palestinos das terras nas quais viviam. No ano anterior, a Organização das Nações Unidas (ONU) havia aprovado uma resolu­ção apoiando a divisão da Palestina em um Estado judeu e outro árabe, que nunca se constituiu. A nova situação causou desesta­bilização em todo o Oriente Médio, que tem como uma de suas expressões as guerras entre Israel e nações árabes vizinhas. No decorrer de décadas, houve vários choques armados.

Em 1993 ocorreram os Acordos de Oslo, mediados pelos Estados Unidos (EUA), que traçaram a meta de que a região contivesse dois Estados: um judeu (Israel) e um pales­tino, esse último formado por duas porções de terras descontínuas – a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, sob ocupação israelense desde a Guerra dos Seis Dias (1967). Os mesmos acordos definiram a criação da ANP, para dar os passos rumo à organização institu­cional dos palestinos. Nos últimos anos, essa é a perspectiva para a região que dá o tom nas negociações internacionais.

Desde o início das conversas, porém, pro­blemas sérios deixaram de ser resolvidos. Um é a situação de Jerusalém. Os palestinos defendem a ideia de que a parte oriental da cidade, ocupada pelos israelenses desde 1967, seja a capital de seu futuro Estado. Israel não aceita, pois considera a cidade inteira como a sua capital. Outro ponto fun­damental para os palestinos não encontra acordo: o direito ao retomo dos que foram expulsos do território israelense. Com a criação de Israel, mais de 700 mil palestinos tomaram-se refugiados. Outra grande onda de deslocamentos ocorreu após a Guerra dos Seis Dias, quando outros 500 mil tiveram de deixar sua casa. Os refugiados, seus filhos e netos, somam agora quase 4,7 milhões de pessoas, segundo a ONU. Esse enorme con­tingente vive precariamente em campos de refugiados. O governo israelense não aceita debater sua volta, pois o eventual regresso poria em xeque as próprias bases nas quais Israel se assenta.

Assentamentos israelenses

Embora Israel tenha se comprometido com os Acordos de Oslo, manteve a política de criar assentamentos nos dois territórios destinados ao futuro Estado palestino. Co­lonos israelenses instalaram-se nos locais, expulsando os palestinos, e formaram po­voações situadas em regiões de população árabe. Para parte dos religiosos judeus, essas áreas pertencem a seu país desde os tempos bíblicos.

Em 2005, o governo israelense decidiu abandonar a Faixa de Gaza. Retirou todos os 21 assentamentos ali existentes, além de quatro pequenas colônias no norte da Cisjordânia. Para muitos palestinos, a medida não era um recuo, mas apenas um meio de consolidar e ampliar os as­sentamentos na Cisjordânia – área muito maior e mais próspera que a minúscula Faixa de Gaza. Existem cerca de 300 mil colonos israelenses na Cisjordânia e 180 mil em Jerusalém oriental.

Além disso, desde 2002 Israel passou a isolar as populações palestinas da Cisjordâ­nia, separando vilas e bairros uns dos outros por meio da construção de um enorme muro de concreto. A justificativa inicial era impedir a entrada de terroristas em Israel. Na prática, o muro propiciou que o país anexasse áreas palestinas e hoje restringe a circulação de pessoas e mercadorias pela região.

Cisão entre palestinos

Nessa situação já difícil, o movimento fundamentalista islâmico Hamas obteve estrondosa vitória, em 2006, nas eleições parlamentares palestinas, e indicou Ismail Haniyeh para primeiro-ministro da ANP. Isso teve graves consequências, pois os EUA, a União Europeia e Israel recusaram-se a manter conversações com um governo che­fiado por uma organização que consideram terrorista Criou-se um entrave a qualquer tipo de entendimento entre as partes.

Os Acordos de Oslo haviam estabelecido que o governo israelense deveria transferir à ANP os impostos e as taxas cobrados dos produtos importados que entram pelos portos de Israel em direção aos territórios palestinos. Com a vitória do Hamas, Israel deixou de repassar esses valores, como for­ma de asfixiar o seu governo. As potências ocidentais também suspenderam o envio de ajuda financeira aos palestinos.

Com isso, o Hamas passou a ser pressio­nado internacionalmente a reconhecer o Es­tado de Israel, a abandonar a luta armada e a aceitar os acordos assinados anteriormente entre israelenses e palestinos. O grupo islâ­mico não concordou, pois pretende criar um Estado islâmico em toda a Palestina.

Ao mesmo tempo, as divergências entre os próprios palestinos se ampliaram, e as relações entre o Fatah e o Hamas, que não eram boas, deterioraram-se de vez. Os dois grupos passaram a se enfrentar militar­mente, e, depois de inúmeras mortes, uma cisão consumou-se em junho de 2007.

Em clima de guerra civil, o Hamas ex­pulsou o Fatah da Faixa de Gaza e passou a controlar a região. O Fatah manteve-se na Cisjordânia, onde o presidente da ANP, Mahmud Abbas, constituiu um novo gover­no, tendo como primeiro-ministro Salam Fayyad. Esse governo foi logo reconhecido por Israel e pelas potências ocidentais. Os EUA suspenderam o embargo financeiro, e Israel descongelou os valores de impostos e taxas que estavam retidos.

Netanyahu no governo

Em novembro de 2007, o governo norte­americano patrocinou uma conferência so­bre o Oriente Médio em Annapolis (EUA), com o presidente da ANP, Mahmud Abbas, o primeiro-ministro israelense, Ehud 01­mert, e representantes de quase 50 países e organizações. No documento final, israe­lenses e palestinos comprometeram-se a tentar um acordo de paz até o fim de 2008, que assegurasse a existência de dois Esta­dos. Mais uma vez não houve avanços.

O governo de Olmert enfrentava sérios problemas internos. Além de sofrer acu­sações de corrupção, o primeiro-ministro israelense era criticado por causa da ofensiva militar contra o Líbano em 2006. O ataque, que visava ao grupo xiita Hez­bollah, foi considerado um fracasso.

Nas eleições parlamentares, em feve­reiro de 2009, nenhum partido obteve maioria significativa. O mais votado foi o Kadima, de Olmert, mas obteve apenas 28 cadeiras de um total de 120. O direitista Likud veio em seguida, com 27, e o ultra­nacionalista Nossa Casa Israel conseguiu 15. Isso obrigou a uma intensa negociação para a formação do governo. O Kadima, com a maior bancada, acabou na oposição, já que o líder do Likud, Benyamin Ne­tanyahu, costurou uma aliança ampla.

Cisjordânia

Condições para a paz

O novo governo, diferentemente do ante­rior, não apoia a política dos “dois Estados” negociada em Oslo. Procura, então, trocar o foco da questão palestina para o Irã, acu­sando o governo iraniano de ser a principal ameaça à segurança da região, por causa de sua suposta intenção de construir armas atômicas. A situação cria certo atrito com os EUA, historicamente os principais aliados e financiadores de Israel. A política externa do presidente Barack Oba­ma, diferentemente da de seu antecessor, George W Bush, prevê a abertura de diálogo com países considerados hostis, como Irã e Síria, com o que Israel não concorda.

Em maio, numa conversa entre os dois governantes, em Washington, Obama rea­firmou apoio à “solução com dois Estados” e pressionou Netanyahu a interromper a construção de mais assentamentos nos territórios palestinos. No mês seguinte, Netanyahu anunciou oficialmente, em um discurso de grande impacto, as suas pro­postas para um acordo de paz: exige que o futuro Estado palestino seja “desmilitarizado”, não possa controlar suas fronteiras nem seu espaço aéreo. Além disso, deve reconhecer de forma clara Israel como “um Estado judeu” e não firmar acordos militares com Irã nem com o grupo li­ banês Hezbollah. Com relação à reivindi­cação de direito ao retorno dos palestinos, o primeiro-ministro disse que é algo a ser resolvido pela comunidade internacional “fora das fronteiras israelenses”. Quanto aos colonos judeus na Cisjordânia, sugeriu que, embora não estejam previstos novos assentamentos, os existentes poderão cres­cer. Por fim, afirmou que Jerusalém deve ser “a capital indivisível” de Israel.

Tais condições, entretanto, são inacei­táveis para os palestinos. De acordo com o principal negociador da ANP, Saeb Erakat, “Benyamin Netanyahu fala de negocia­ções, mas não nos deixa nada a negociar. Ele anuncia uma série de condições e de restrições que tornam impossível um Estado palestino viável, independente e soberano”. Para um dos as­ sessores de Abbas, Yasser Abed Rabbo, o governante “empregou a expressão `Estado palestino’, mas quer um `protetorado isra­elense”‘. O porta-voz de Oba­ma, porém, elogiou o discurso, considerando-o um “importante passo”.Nesse quadro complexo, um plano de paz lançado em 2002 pela Arábia Saudita, e apoiado pelos 22 países da Liga Árabe, tem sido citado como base para um possível entendimento. A proposta prevê a retirada de Israel dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias e a aceitação de um Estado pa­lestino, na Faixa de Gaza e Cisjordânia, tendo Jerusalém Oriental como capital. Em troca, os 22 países reconheceriam formalmente Israel como Estado judeu. Um representante do governo Obama chegou a manifestar apoio ao plano como base para um acordo. Resta saber se os desenvolvimentos mais recentes dão chance a que a proposta seja seriamente levada em conta.

Saiba mais com um resumo cronológico dos fatos

1897 Fundação do movimento sionista, que propõe o retorno dos judeus à Palestina. Mi­lhares de judeus europeus emigram para a região, parte do Império Turco-Otomano.

Plano de partilha

1920-1948 Domínio britânico na Palestina.

1939.1945 Segunda Guerra Mundial. Fugindo do na­zismo, mais judeus chegam à Palestina.

1947 A ONU propõe a divisão da Palestina em dois países: 56,47% para os judeus e 43,53% para os árabes. Os árabes rejeitam.

após a independência

1948-1949 Com a retirada britânica, os judeus proclamam o Estado de Israel. Jor­dânia, Egito, Líbano, Síria e Iraque atacam, mas são expulsos. Israel cresce 75%; o Egito incorpora a Faixa de Gaza; Cisjordânia e Je­rusalém Oriental são entregues à Jordânia; os palestinos ficam sem território.

1964 Criação da Organização para a Liber­tação da Palestina (OLP).

1967 Guerra dos Seis Dias. Israel vence os árabes e ocupa a Faixa de Gaza, a península do Sinai (Egito), as Colinas de Golã (Síria), a Cisjordãnia e Jerusalém Oriental.

após guerra dos seis dias

1973 Guerra do Yom Kippur. Israel derrota ataque do Egito e da Síria.

1977-1979 O Egito e Israel firmam tratado de paz. O Sinai é devolvido ao Egito.

1982 Israel invade o Líbano.

1987 1a Intifada (levante contra a ocupação dos territórios palestinos).

1988 O Conselho Nacional Palestino aceita o plano de partilha da ONU, de 1947.

1993 Acordo de Paz de Oslo e criação da Autoridade Nacional Palestina (ANP), sob o comando de Yasser Arafat, líder da OLP.

2000 Início da 2ª Intifada.

2002 Muro na Cisjordãnia em construção.

2004 Morre Yasser Arafat.

2005 Mahmud Abbas é o presidente da ANP. Israel remove os assentamentos de Gaza.

2006 O Hamas vence a eleição palestina. Is­rael ataca o Líbano, visando ao Hezbollah.

2007 Choque armado entre os palestinos. O Hamas assume o poder na Faixa de Gaza.

2008 Israel ataca a Faixa de Gaza.

2009 Israel cessa os ataques a Faixa de Gaza devido à posse do Presidente Obama, para evitar um incidente diplomático com os EUA.

Governo Barack Obama

Posted in Geopolítica, Governo norte americano with tags , , on 25 de outubro de 2009 by Marcos Brandão

MUDANÇA DE ESTILO

(Guia do Estudante, 2010, p. 57)

Barack Obama chega à Presidência dos EUA em meio a grandes dificuldades internas e externas, mas, à diferença de Bush, enfrenta os problemas com ênfase na diplomacia e na negociação

Barack obama

Seis meses depois da posse como presidente dos Estados Unidos (EUA), Barack Obama continua a impressionar plateias com um discurso vigoroso que fala em mudanças e em novas relações do país com as demais nações.

Expressões comuns durante o governo de George W. Bush (presidente de 2001 a 2009), como “guerra ao terror”, foram banidas do vocabulário presidencial, e há mais disposição para o diálogo com outros países. A mudança de estilo é inegável, mas a análise das ações efetivas mostra que, em muitos aspectos, as modificações são bem mais tímidas do que se previa.

Os analistas calculam que o presidente esteja enfrentando dificuldades enormes em seu início de governo. Além da grave crise econômica, precisa lidar simultane­amente com situações delicadas em várias partes do planeta, entre as quais o conflito que envolve Israel e os palestinos, as con­trovertidas eleições presidenciais no Irã, a pressão pelo fim do embargo a Cuba, o golpe em Honduras e os mísseis que a Coreia do Norte voltou a disparar.

Foi justamente na política externa que as modificações tiveram mais destaque. Mar­cado pelos atentados de 11 de setembro de 2001, Bush definiu-se como o “presidente da guerra”, e a alternativa militar estava sempre entre as opções de destaque para defender os interesses dos EUA no mundo.

Em nome desses mesmos interesses, Obama adotou outra estratégia, que enfa­tiza a diplomacia – inclusive em direção aos regimes que não têm a menor simpatia pelos EUA – e o multilateralismo, ou seja, a busca de acordos e parcerias com os países aliados para uma atuação conjunta.

A expressão mais repetida pelo presi­dente, dirigida tanto ao Irã quanto a Cuba, assim como ao “mundo muçulmano” em geral e à Federação Russa, é a de que seu governo deseja “um novo começo” nas rela­ções recíprocas. De forma significativa, ele

se dispôs a retomar a indicação de embaixa­dores norte-americanos na Venezuela e na Síria, cujos governos se opõem aos EUA. Na América Latina, iniciou uma aproximação com Cuba.

Domínio militar

Seria incorreto, porém, dizer que, em oposição a Bush, Obama seja o “presiden­te da paz”. Durante a sua campanha para presidente, ele prometeu que retiraria as tropas norte-americanas do Iraque até maio de 2010. No governo, porém, anun­ciou que manterá entre 35 mil e 50 mil soldados em território iraquiano até o fim de 2011. Essa decisão foi aplaudida pela oposição (Partido Republicano) e deixou incomodados vários dirigentes do Partido Democrata, o mesmo de Obama.

AfeganistãoTropas norteamericanas no Afeganistão. Fonte: http://www.enciclopedia.com.pt/…/AP2002-5412.jpg

Além disso, a retirada do Iraque será acompanhada do reforço de pelo menos 21 mil soldados norte-americanos no Afega­nistão, país que, como seu vizinho Paquistão, se tomou o centro da estratégia militar no novo governo. Em julho deste ano, os EUA iniciaram a maior ofensiva militar no Afe­ganistão desde que o país foi ocupado, em 2001.

Os gastos militares sob Obama irão até mesmo crescer um pouco. Na proposta de Orçamento de 3,55 trilhões de dólares que o presidente apresentou para o ano fiscal de 2010 (outubro de 2009 a setembro de 2010), o valor destinado à Defesa é de 664 bilhões de dólares, um aumento de 1,5% em relação ao orçamento anterior. O presidente deixou claro, em discurso pronunciado em Washington, em mar­ço: “Não tenham dúvidas, este país vai manter o seu domínio militar”.

Segundo o Instituto internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri), as despesas militares mundiais em 2008 totalizaram 1,46 trilhão de dólares, dos quais 607 bilhões de dólares foram gastos pelos norte-americanos.

Guantánamo

Uma das primeiras medidas anunciadas por Obama foi o fechamento, no prazo de um ano, da prisão na base militar de Guantánamo, em Cuba (veja mapa), para onde o gover­no Bush enviou centenas de prisioneiros acusados de ligação com o terrorismo. Essa diretriz se mantém vigente, mas, nos meses seguintes, outras iniciativas anunciadas nessa área acabaram sendo revertidas, deixando a sensação de que o combate ao terror não sofreu tantas mu­danças em relação ao governo anterior.

Mapa de Cuba

Mapa da ilha de Cuba com Guantanamo ao Sul. Fonte: www1.folha.com.br/…/20060802-mapadecuba.gif

Obama baniu a prática de tortura nos prisioneiros e, inicialmente, suspendeu as comissões militares encarregadas de julgar esses presos por fora do sistema judicial dos EUA. Ao fim de quatro me­ses, porém, anunciou que as comissões continuarão. Além disso, mantiveram-se os programas da CIA (agência de inteli­gência norte-americana) de transferência de presos para nações nas quais eles não possuem direitos legais e a detenção por tempo indeterminado, sem julgamento, de suspeitos de vinculação com o ter­rorismo. Todas essas medidas, que dão prosseguimento ao que Bush fez, foram duramente criticadas por entidades de defesa dos direitos humanos.

A própria sorte dos detidos é incerta – o grande problema para que seja cumprida a decisão de fechamento da prisão é saber para onde vão os cerca de 240 presos. A União Europeia dispôs-se a ajudar os EUA, recebendo alguns deles, com base em pedidos especiais do governo norte­americano. A ida de presos de Guantána­mo para prisões no interior do território norte-americano, por outro lado, sofre forte oposição de políticos, o que torna a solução do problema uma dificuldade a mais para o governo. Outro obstáculo é a resistência das cortes militares quanto à revisão dos procedimentos jurídicos adotados até agora.

Planos econômicos

Na política interna, Obama teve de se concentrar em iniciativas que procuram dar conta da grave crise econômica vi­vida pelos Estados Unidos (veja gráfico que segue), considerada a pior desde a Grande Depressão, em 1929. O governo norte­americano destinou vultosa soma para ajudar bancos, seguradoras e empresas de financiamento imobiliário. A primei­ra grande ação do novo governo foi um pacote de estímulo à economia, no valor de 787 bilhões de dólares, aprovado pelo Congresso em fevereiro.

Gráfico desemp EUA

O governo apresentou ainda um plano de salvamento dos bancos, com o objetivo de retirar cerca de 1 trilhão de dólares dos “ativos tóxicos” das instituições fi­nanceiras, permitindo que retomem a concessão de empréstimos. Ativos tóxicos são títulos que tinham como garantia, em geral, os negócios imobiliários que entraram em colapso em 2008. O nome deles é esse porque são papéis que perde­ram o valor e arrastaram quem os possui para a crise. Nessa mesma área, Obama propôs uma reformulação do mercado financeiro norte-americano, a mais ampla desde a década de 1930. Se essa proposta for aprovada pelo Congresso, serão au­mentados os poderes de fiscalização do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Um sério problema social é o das pes­soas que compraram casa por meio de financiamento e não conseguem mais pa­gar as prestações, por causa da elevação dos juros. As ações de despejo por falta de pagamento atingiram milhões de norte­americanos, desde 2008, e tornaram-se a causa de alguns dos episódios mais dra­máticos da crise, com cenas de famílias e todos os seus pertencentes jogados na rua, em frente à residência vazia.

Pressionado pela amplitude do proble­ma social, o governo anunciou medidas de refinanciamento dos empréstimos imobi­liários, com o objetivo de reduzir o valor das prestações e tentar deter os despejos. Analistas afirmam, contudo, que as medi­das não tiveram impacto significativo. Em abril deste ano, o número de notificações de despejo subiu 32%, em comparação com o mesmo mês de 2008.

Outra iniciativa social, mais abrangen­te, é a proposta de gastar 634 bilhões de dólares, no decorrer de 10 anos, para uma ampla reforma do sistema de saúde dos EUA. Essa era uma das principais bandei­ras da campanha eleitoral de Obama.

O projeto é eliminar algumas das deduções dos impostos dos mais ricos, aprova­das durante o governo de George W Bush, para levantar os recursos necessários à reforma e criar um fundo de saúde pública de acesso universal. Estima-se que 47 milhões de norte-americanos não tenham acesso a nenhum tipo de seguro-saúde.

Intervenção do Estado

A crise econômica provocou uma inter­venção inédita do Estado na economia nor­te-americana. A ajuda maciça a empresas teve início no fim do governo Bush. Obama seguiu a mesma linha, e o resultado é que o governo se tornou grande acionista de bancos, como o Citigroup, e de companhias automobilísticas, como a GM e a Chrysler. As duas pediram concordata em razão de dificuldades financeiras. Obama apresen­tou várias exigências para sua recuperação, que abrangem um corte severo de custos e de empregados, com o fechamento de fábricas. Além disso, o próprio sindicato dos trabalhadores automobilísticos (cuja sigla é UAW) foi chamado pelo governo a colaborar, investindo parte do fundo de pensão dos empregados na compra de ações das empresas e aceitando a redução de salários e benefícios.

Sede da GM em Detroit, Michigan, EUA.

Sede da GM em Detroit, Michigan, EUA.

Muitos críticos dizem que o governo Oba­ma promoveu a estatização dessas compa­nhias, mas essa avaliação não procede. Para efeito de comparação, vemos que alguns governos de esquerda da América Latina, como o de Hugo Chávez, da Venezuela, e o de Evo Morales, da Bolívia, promoveram a estatização de empresas multinacionais que atuavam em setores estratégicos da econo­mia, como os de petróleo, gás e telefonia. O argumento para essa ação é a necessidade de que a gestão de recursos do país passe permanentemente para as mãos do Estado. No caso dos EUA, nem Bush nem Obama defendem isso – a intervenção busca sanear as empresas, para torná-las novamente lu­crativas e devolvê-las ao mercado.

O próprio Obama, em abril, afirmou: “Eu não quero dirigir empresas de automóveis, não quero controlar bancos. Já tenho de controlar duas guerras. Tenho mais do que o suficiente para fazer. Portanto, quan­to antes sairmos desse negócio, melhor. Vivemos circunstâncias únicas. Havia o potencial colapso do sistema financeiro, que teria dizimado a nossa economia, portanto tivemos de intervir”.

De todo modo, a iniciativa de ajuda às empresas e bancos é muito criticada por parcela considerável da população norte­americana, para a qual o dinheiro públi­co está sendo investido na solução dos problemas de banqueiros e de grandes empresários falidos, enquanto milhões de pessoas comuns perdem o emprego e não têm auxílio equivalente.

Desde que os EUA entraram oficialmente em recessão, em dezembro de 2007, até junho de 2009, 6,5 milhões de norte-ame­ricanos perderam o emprego. O índice de desemprego atingiu, em junho, a marca de 9,5%, elevando o total de desempregados a 14,7 milhões de pessoas.