Continente Africano

Este escrito foi adaptado pelo Prof. Marcos Brandão do Guia do Estudante, Atualidades Vestibular, 2010, 2011.

A Partilha da África

Entre os séculos VII e VIII, o norte da África foi conquistado pelos povos árabes que propagaram o islamismo na região. Isso explica o domínio da língua árabe e da religião muçulmana nesta porção sobresaariana do território e parte da subsaariana, já que o deserto era atravessado por caravanas que transportavam marfim, ouro e escravos até os reinos sudaneses. Hoje, a região do Sahel (envolve os países: Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Mali, Níger, Chade, Sudão, Djibuti, Somália e Etiópia) apresentam população entre 50 e 90% muçulmana.

A África chamada de não-árabe passou a ser designada de “África Negra” ou Subsaariana com tráfico de escravos inicialmente conduzido pelos árabes, mas desde o século XV a África passou a ser subjugada pelos europeus. Por quase quatro séculos, Portugal, Espanha e Inglaterra levaram para o continente americano mão-de-obra escrava capturada na África (calcula-se 12,5 milhões de africanos, sendo 4 a 5 milhões no Brasil).

A disputa pelos territórios africanos acirrou as desavenças entre as potências. Para resolver o impasse, os países envolvidos realizaram a Conferência de Berlim, entre 1884 e 1885. O encontro definiu a partilha do continente entre as principais nações europeias, criando fronteiras artificiais, sem levar em conta os territórios das etnias nativas. Apenas a Libéria – nação formada por escravos e ex-escravos norte-americanos – e a Etiópia mantiveram-se independentes (veja sequência de  mapas que seguem).



Riqueza e Tragédia

Esquecida pela Globalização e imensa em pobreza, fome, doenças e conflitos, a África é rica em recursos naturais cobiçados por regiões mais prosperas.

Na primeira década do século XXI, dados sobre o continente africano mostram uma pequena melhora em relação aos indicadores das décadas anteriores. Diante de seus baixos índices econômicos e sociais, há quem possa afirmar que seria impossível piorar: isso, infelizmente, não é verdade.

Este artigo atende aos fins de leitura e pesquisa e pertence ao blog GeoBau (http://marcosbau.com). Proibida a reprodução pelo Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610/98 de Direitos Autorais. PLÁGIO É CRIME. DENUNCIE. 

De 2000 a 2006, houve um aumento médio de 2% no PIB per capita (Produto Interno Bruto por habitante), contra o decréscimo de 0,7% na década anterior. Dados por habitante têm a limitação de estabelecer uma média inexistente na realidade, pois ignora as diferenças de riqueza entre as várias camadas da so­ciedade. Mas mesmo os índices de de­senvolvimento humano (IDH) dos países africanos, nos quais se consideram dados sobre renda, saúde e educação, mostram sucessivas elevações, embora ainda sejam os mais baixos do planeta.

Entre os principais responsáveis pelo crescimento econômico estão os países exportadores de petróleo – Angola, Ca­marões, Chade, os dois Congos, Guiné Equatorial, Gabão e Nigéria – e de mi­nérios estratégicos. Entretanto, mesmo entre outros países da África Subsaariana, registrou-se melhoria no desempenho da economia no último período, especial­mente pela alta no preço de produtos agrícolas (commodities). Há evidências de que o progresso beneficie sobretudo uma elite, pois há um aumento da de­sigualdade de renda nesses países: em 1975, os 10% mais ricos da população subsaariana recebiam 10,5 vezes mais que os 10% mais pobres; em 2005, essa relação cresceu para 18,5 vezes.

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As duas Áfricas

Grande parte dos países da África pos­sui economia essencialmente agrícola e dependente da importação de petróleo e de produtos industrializados. Campos cobertos por monoculturas de exporta­ção, como o café, o cacau ou o algodão, alternam-se com lavouras de subsistên­cia. A mineração responde por quase 90% da receita de exportação do continente, liderada pela África do Sul, que detém, sozinha, quase um quarto do PIB africano (que, somados seus 53 países, é pratica­mente igual ao PIB do Brasil). Veja figura que segue.

Em termos geográficos e humanos, o continente apresenta duas grandes sub­regiões, cujo limite comum corresponde ao deserto do Saara: a África Setentrional e a Subsaariana. Os seis países da Áfri­ca Setentrional – Egito, Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos e Djibuti – têm clima desértico e ocupação predominantemen­te árabe. A África Subsaariana – os 47 países ao sul do deserto do Saara – reúne a população majoritariamente negra e apresenta baixíssimos índices econô­micos e sociais. Quase metade de seus 700 milhões de habitantes possui renda inferior a 1 dólar por dia.

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Na África Subsaariana, a pobreza tem sido agravada pela ocorrência de graves conflitos, cujo pano de fundo é a disputa pelo controle das riquezas naturais do continente, mas que, com frequência, explodem a partir de tensões étnicas e religiosas, como as lutas entre cristãos e islâmicos. A influência se­cular do islamismo dos povos árabes – que cruzavam o Saara para fazer trocas comer­ciais – convive nessa região com as religiões cristãs trazidas pelos europeus e com as crenças tradicionais.

Às vezes, como no Quênia, em 2008, os choques étnicos explodem por disputas políticas: o candidato de oposição derrota­do nas eleições à Presidência, Raila Odin­ga, acusou de fraude o presidente Mwai Kibaki. Foi a fagulha para a generalização de uma violência de caráter tribal que dilacerou o país por semanas, ao fim das quais os dois candidatos chegaram a um acordo para compartilhar o governo.

China, Índia e EUA

Praticamente isolada em relação à eco­nomia globalizada, a África apresenta, desde o início da última década, um cres­cimento médio anual de 4,5% a 5,5% do PIB. Com a forte expansão das economias da China e índia, na Ásia, que passaram a importar muita matéria-prima, foram direcionados a diversos países africanos grandes investimentos, em especial nos setores de energia, minérios e transpor­tes. As trocas comerciais do continente com os dois países foram intensificadas, e as vendas para China e índia, que em 2000 representavam 14% das exporta­ções africanas, alcançaram 27% em 2008, praticamente igualando o comércio com a União Europeia e os Estados Unidos. Para a Nigéria, o maior produtor de pe­tróleo africano, o governo chinês dá ajuda financeira e técnica a setores estratégicos de energia e de telecomunicações. Em Angola, financia a reconstrução do país após 27 anos de guerra civil, encerrada em 2002. O Sudão, que começou a exportar petróleo há três anos, vende a maior parte de sua produção aos chineses e, em 2007, teve um crescimento estimado de 11,2%.

Por causa de interesses estratégicos, os norte-americanos vêm desenvolvendo uma ofensiva comercial, diplomática e militar para aumentar sua influência na África. Por um lado, procuram garantir o acesso às fontes de energia; por outro, assegurar as vias de transporte que permitem o es­coamento das matérias-primas. Os EUA precisam de manganês (para a produção de aço), cobalto e cromo (para as ligas, so­bretudo na Aeronáutica), ouro, antimônio, flúor, diamantes industriais. Além disso, o continente pode se tornar a segunda maior fonte de petróleo dos Estados Unidos, atrás do Oriente Médio. Atualmente, os EUA importam 16% do petróleo que consomem da região. Até 2015, esse número pode aumentar para 25%. Em razão desse interesse, Barack Obama, primeiro presidente dos EUA afrodescendente (seu pai nasceu no Quênia), esteve em julho em Gana, para uma visita à África Subsaariana menos de seis meses depois da posse.

O difícil, porém, é fazer com que o au­mento dos negócios com os EUA, a China e a Índia se reverta em melhoria real do nível de vida da população africana. Uma questão central para que isso ocorra permanece in­tocada as condições desiguais do comércio internacional que impedem os africanos de colocar seus produtos com lucro no mer­cado mundial. Segundo a ONU, se a África tivesse mantido a taxa de exportação que tinha na década de 1980, hoje exportaria 119 bilhões de dólares a mais ao ano – ou seja, cinco vezes mais do que toda a ajuda que recebeu dos países desen­volvidos em 2002.

O caso do algo­dão explica bem a situação. A lavoura algodoeira é a fon­te de sobrevivência de pelo menos 15 milhões de pessoas no oeste da África. Em virtude da boa qualidade, a produção de algodão é um dos raros setores em que o continente continua competitivo. Mas os subsídios (ajuda financeira) que os Estados Unidos e a União Europeia dão a seus agricultores sustentam uma superprodução global que derruba as cotações e impede que a ativi­dade seja lucrativa para os africanos.


Minérios e petróleo

As reservas naturais tornam a África um objeto de cobiça, um mercado atraente para países dependentes de matérias-primas, como a China e os Estados Unidos. Metade do cobalto do planeta está na República De­mocrática do Congo e na Zâmbia; 98% das reservas mundiais de cromo encontram­-se no Zimbábue e na África do Sul, que também concentra 90% das reservas de metais do grupo da platina.

Mas, diante da carência energética atual, é o petróleo o maior foco de atenção. Quando muitos produtores tradicionais desse combustível projetam o fim de suas reservas em um futuro não muito distante, países desenvolvidos voltam­-se para o território africano, onde estão cerca de 10% das reservas comprovadas de petróleo, que, ao contrário de áreas de exploração intensa, tendem a crescer ano a ano. O continente responde por 12,4% da produção global e recebe investimen­tos crescentes para expandi-la.

produção petróleo África

A Nigéria, a maior produtora de petróleo no continente, obtém 90% de suas receitas externas com sua exporta­ção. O país, porém, mantém-se entre aqueles com os mais baixos índices de desenvolvi­mento humano do planeta, ocupando a 158º posição. Ango­la, o segundo maior produtor africano de petróleo (58% do seu PIB), apre­senta índices sociais lamentáveis. Está entre os dez que mais sofrem com a fome crônica no mundo. A economia angolana, porém, co­meça a recuperar-se do longo período de conflito e desde 2002 duplicou a produção de petróleo. Em 2007, tomou-se o principal fornecedor do combustível para a China e passou a integrar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com uma cota de produção diária de 1,9 milhão de barris. O crescimento da economia estimula o retomo de parte dos 450 mil angolanos que se refugiaram em países vizinhos.

O drama da aids

Entre os flagelos que atingem o conti­nente africano, a epidemia de aids é um dos mais brutais. Três quartos das mortes causadas pela doença no mundo ocorrem na África Subsaariana, que abriga 67% da população mundial portadora do vírus HIV. Uma tragédia que afeta cada vez mais crianças e jovens até 24 anos de idade, que em 2007 representavam quase 60% dos infectados. Nesse ano, apenas nos países subsaarianos morreram em torno de 250 mil crianças de até 15 anos em decorrência da aids. Em sete países vizinhos do sul do continente – Botsuana, Lesoto, Namíbia, África do Sul, Suazi­lândia, Zâmbia e Zimbábue -, 15% da população adulta tem o vírus HIV.

Sistemas públicos de saúde precários, somados à pobreza e à desnutrição, aumentam a incidência de doenças em portadores do HIV, reduzindo a expectativa de vida da população. Na África Subsaariana, ela não passa hoje, em média, de 50 anos e, no Zimbábue, não chega a 40. Com esse declínio, a expec­tativa de vida retrocede a níveis ante­riores aos da década de 1950. A situação é mais dramática para crianças conta­minadas por transmissão vertical (ao nascer): metade das que não recebem tratamento morre antes de completar 2 anos. Há também o drama de milhões de crianças que perdem os pais por causa da doença e não encontram quem pos­sa cuidar delas. São os órfãos da aíds, problema social de grande proporção em alguns países.

Nos últimos anos, porém, houve au­mento considerável da parcela da po­pulação contaminada que passou a ter acesso aos medicamentos antirretrovirais – conjunto de pelo menos três drogas, que, quando administradas ao mesmo tempo, têm seu efeito potencializado. Entre 2003 e 2007, países como Ruanda e Namíbia, que ofereciam tratamento a cerca de 1% dos contaminados, passaram a oferecer, respectivamente, a 71% e 88% dos portadores de HIV.

aids na África

acesso a remédioa antiaids

TENSÃO NO CONTINENTE  – Mesmo com a redução no número de conflitos nos últimos anos, a África está longe de ser pacificada

O desenvolvimento e a estabilização da África dependem muito da solução dos conflitos em curso, que ocorrem principalmente em locais de disputa por recursos naturais, como petróleo e minérios. Historicamente, porém, muitas das atuais guerras têm como uma de suas causas as fronteiras traçadas há mais de 100 anos pelas potên­cias colonialistas , resultando em tensões agora exacerbadas nas disputas pelas riquezas naturais.

A África é o continente em que a ONU concentra a maior parte de suas tropas de paz: entre as 17 missões em vigência, em 2009, oito estão em países africanos. Em pleno conflito ou colaborando para os processos de paz, há tropas multina­cionais no Sudão, no Saara ociden­tal, na Libéria, na Costa do Marfim, na República De­mocrática do Con­go, na Etiópia e naEritreia, na Repú­blica Centro-Africana e no Chade.

Em grande parte dos países, a ONU atua com tropas da União Africana (organização que reúne 52 nações do continente), que têm a missão, entre outras, de restabelecer a ordem nas regiões afetadas por guerras civis. Atualmente, suas maiores forças estão em Darfur, no Sudão, na República De­mocrática do Congo (RDC) e na Somália, onde conta com 4,3 mil soldados. A seguir conheça as principais regiões de conflitos.

Conflitos nas RDC

Antigo Zaire, a República Democráti­ca do Congo (RDC) abriga mais de 200 grupos étnicos. A origem do atual con­flito remonta a 1994, quando 1 milhão de pessoas – em sua maioria da etnia hutu -, fugindo do genocídio desencadeado em Ruanda, ingressaram no leste do país, desestabilizando a região habi­tada havia mais de 200 anos pelos tutsis baniamulenges. Esses responderam com uma rebelião, em 1996, que se espalhou pelo país e recebeu o auxílio de Uganda e Ruanda. Em 1997, os rebeldes venceram e seu líder, Laurent-Desiré Kabila, assumiu a Presidência do país.

No ano seguinte, Kabila rompeu com seus antigos aliados e buscou a ajuda de Zimbábue, Burundi, Namíbia e Angola, que entraram no conflito. Em 2001, o presidente foi morto e seu filho, Joseph Kabila, assumiu o posto. Um acordo de paz foi fechado em 2003 e uma nova Constituição, promulgada. Eleições pre­sidenciais históricas, as primeiras do país desde a independência, em 1960, se deram entre julho e outubro de 2006. Kabila foi o vencedor, com 58% dos vo­tos. A Assembleia Nacional foi instalada em setembro e os governos locais, eleitos em janeiro de 2007.

Segundo a ONU, mais de 4 milhões de pessoas morreram nos conflitos, financia­dos principalmente pela extração ilegal de diamante. Mas, mesmo com a guerra civil oficialmente acabada, os embates conti­nuam em várias regiões da RDC. O grande motivo são as ricas reservas minerais do território (veja o mapa na pág. 98), cujo con­trole é disputado por milícias manipuladas por governos e empresas estrangeiras.

Darfur, Sudão

Um grave conflito teve início em 2003 no oeste do Sudão, quando um movimen­to ligado à maioria negra de agricultores realizou ações armadas, acusando o po­der central de discriminá-los. O governo reagiu com violência, apoiado pela milícia Janjaweed – cujos integrantes se consi­deram árabes -, que realizou massacres contra os agricultores (limpeza étnica). Os choques já causaram mais de 400 mil mortes e fizeram 2 milhões de refugiados, dos quais cerca de 200 mil fugiram para o vizinho Chade.

Tropas da União Africana e da ONU fo­ram deslocadas para a região. A pressão internacional pelo desarmamento da milícia levou o governo abuscar negociar com os se­paratistas. A assinatura da paz com o maior dos grupos não encerrou o conflito.

Em março de 2009, o Tribunal Penal In­ternacional, em Haia, que já havia emitido mandado de prisão contra líderes das mi­lícias e um membro do governo sudanês, condenou à prisão o presidente do Sudão, Ornar Al-Bashir, por crimes de guerra. Em razão disso, a União Africana, que havia pedido o adiamento do julgamento, decidiu encerrar sua cooperação com o tribunal. Alguns países africanos encaram a decisão como demasiada interferência na soberania dos países.

Costa do Marfim

O país tem maioria islâmica no norte, região pobre, e cristã no sul, mais desen­volvido. A animosidade entre as duas áreas foi acirrada em 2002, com uma crise eco­nômica provocada pela queda dos preços do cacau, o principal produto nacional de exportação. O conflito se estendeu e os rebeldes dominaram a metade norte da Costa do Marfim. Em 2007, foi assinado um acordo para a formação de um governo e de um comando militar compartilhado entre o governo e os rebeldes, e foram mar­cadas eleições presidenciais. Elas ainda não ocorreram: foram adiadas para 2008 e, depois, para este ano.

Nigéria

Nação mais populosa do continente, também vive uma situação interna ins­tável. Além da divisão entre muçulmanos (ao norte) e cristãos, existem mais de 200 grupos étnicos, com língua e cultura di­ferentes. As tensões explodiram em 1999, quando alguns Estados oficializaram a Sharia, legislação baseada no Corão (o livro sagrado do Islã).

Nos locais onde a presença cristã era mais forte, houve protestos e choques nas ruas. Mais de 10 mil pessoas morreram desde 2000. Em 2007, as eleições presi­denciais e parlamentares provocaram uma nova onda de violência, que resul­tou em mais centenas de milhares de mortes. Os conflitos se mantiveram em 2008, assim como as ações de sabotagem às atividades econômicas praticadas no delta do rio Níger, de onde se extrai muito petróleo, por diversos grupos rebeldes.

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COSTA DA SOMÁLIA: ATENÇÃO, PIRATAS!

A desagregação do país, um dos mais polires do mundo, deu lugar à formarão de grupos armados e à criação de bases a partir das quais piratas atacam navios no oceano Índico

piratas Somália

A passagem de navios de transporte e de passageiros pelo golfo de Áden, na costa da Somália, ganhou con­tornos de uma arriscada aventura nos últi­mos tempos. O número de ataques piratas na região mais que dobrou de 2007 para 2008 – de 44 para 111 -, e, até junho de 2009, haviam ocorrido 132, além de mais de duas dezenas de barcos encontrarem-­se nas mãos de piratas com armamento pesado. Tentando fugir da zona de risco, vários navios que viajam do sul da Ásia para a Europa ou a costa leste da América do Norte passaram a contornar o sul da África, ampliando o percurso em milhares de quilômetros. O alto risco da travessia no golfo de Áden elevou em dez vezes no último ano o custo do seguro dos navios que fazem a rota.

Localizado entre a África e a península Arábica, o golfo de Áden liga o oceano In­dico ao canal de Suez e ao mar Vermelho e é estratégico para o comércio mundial: passam por lá 20 mil navios por ano, 12% deles carregados de petróleo. Piratas justi­ficam as atividades criminosas como uma retaliação à pesca ilegal e ao despejo de lixo, ações praticadas por navios estrangeiros naquela região. Mas o índice de sucesso tem sido o principal incentivo para a expansão das ações criminosas. Estima-se que em 2008 a atuação dos piratas na costa da Somália tenha rendido entre 75 milhões e 120 milhões de dólares em pagamento de resgates. Nos primeiros quatro meses de 2009, calcula-se que tenham extorquido cerca de 38 milhões de dólares, mesmo com a entrada em cena de uma força aeronaval internacional, instalada na região desde janeiro, sob comando da ONU.

Caos político

Há quase duas décadas, a Somá­lia – localizada no “Chifre da África”­enfrenta uma desa­gregação completa do poder de Estado, com as atividades econômicas quase para­lisadas e as instituições em pedaços. Um quarto de seus 8 milhões de habitantes de­pende da ajuda humanitária internacional para sobreviver. Desde 1991, os 15 governos provisórios que se sucederam no poder não obtiveram êxito em reduzir o conflito entre as diversas forças políticas que retalham o controle do território. O último governo, empossado em fevereiro de 2008, após a aprovação de Sharif Ahmed como presi­dente pelo Parlamento, é formado por mu­çulmanos moderados, apoiados pelos EUA e pela União Africana, que mantêm no país uma força de 4,3 mil homens.

O governo formal, porém, é quase fictí­cio, pois controla uma pequena área do país e só parte da capital, Mogadíscio, invadida em maio pelos shababs, radicais islâmicos ligados à antiga União dos Tribunais Islâmicos. Apoiada pelo governo da Eritreia e reforçada por jovens combatentes estran­geiros jihadistas (a favor da “guerra santa”), a organização Shabab – “juventude”, em árabe – mantém ligações com a rede ter­rorista AI Qaeda, de Osama bin Laden, e usa muitos de seus métodos de terror. O governo enfrenta ainda o movimento por autonomia de duas províncias – Somalilân­dia e Puntland – e as milícias associadas a clãs remanescentes no território.

Dificuldade em punir

Uma das dificuldades apontadas para conter a pirataria relaciona-se aos trâmites jurídicos para a punição dos grupos crimi­nosos. Pela Convenção da ONU, de 1982, eles poderiam ser presos e julgados pelo país dono da bandeira do navio atacado. Por essa razão, há piratas somalis sendo julgados em países como Holanda, França, Espanha e Estados Unidos. A maior parte dos suspeitos de pirataria, no entanto, tem

sido libertada pelas marinhas de guerra ou entregues às forças policiais da província semiautônoma de Puntland, região de ori­gem da maior parte dos capturados.

Na realidade, percebe-se que não há interesse dos países em trazer os réus para seus territórios – sob o risco de serem obri­gados a mantê-los indefinidamente. Uma das saídas tem sido encaminhar os piratas para julgamento no Quênia, país vizinho à Somália que se dispôs a recebê-los a partir de acordo com EUA, União Europeia e Reino Unido. Grupos de direitos humanos e juristas criticam a decisão, por considerar que o Quênia não dispõe de um sistema judiciário e prisional capaz de garantir um julgamento justo e um tratamento humano, o que contraria o direito internacional.

Entretanto, medidas diplomáticas ou bélicas são paliativas. A questão da pira­taria na costa da Somália será controlada, efetivamente, com a formação de um go­verno legítimo, capaz de proteger as águas territoriais e fazer cumprir a lei em seu território, o que parece distante de ser al­cançado. Para o comércio internacional, o horizonte é cinzento, pois o livre trânsito de embarcações é condição básica para o transporte marítimo, responsável por 90% do comércio mundial.

Fonte: Guia do Estudante, Atualidades Vestibular, 2010, 2011, p. 28-39.

84 Respostas to “Continente Africano”

  1. tod mundo Says:

    obg, foi mt util (:

  2. toh fazendo um trabalho da escola sobre o continente africano
    foi muito util as informações q tirei desse site obrigado agora só falta eu
    tira um dezzzz

  3. Thayná Patrícia Says:

    Gostei muito do site mas só que o que eu preciso eu naum encontrei é sobre a infra-estrutura energértica!! da africa!!!!!!!!!!

  4. esta muito bom, mas eu queria saber se tem haver o que procuro com o q vc escreveu q é o clima de tensão no continente africano( sudão, costa do marfim e nigeria). Obrigado !

  5. vlw pelo post me serviu muito ja add o site nos favoritos.

  6. Texto muito bom. Abordou a parte da pirataria na Somália. Isso foi tema de uns itens do último vestibular da UnB. Foi bom para me informar sobre o assunto.

    • A ideia é essa! Ajudá-los para a UnB e outros vestibulares. Inclusive o último vestibular da Católica de Brasília (2010) usou dois trechos dos nossos textos em duas questões.
      Volte sempre!

  7. alessandro Says:

    não sei quais conflios originaram as fronteiras da Africa

  8. estou fazendo um trabalho sobre o continente Áfricano gostei muito do seu desempenho

  9. encontrei o que eu precisava , menos as fontes de exportação e importação do continente africano !
    poderia postar pra mim ?

    obrigada !

  10. Adorei o conteúdo foi de grande ajuda para meu trabalho. mas não encontrei nada relacionado ao processo de colonização e o fraco desenvolvimento economico.

  11. Aiin valew, obg; me ajudou mtoo encontrei todas as imagens qe precisava!! Tdb…

  12. Observei seu post e vi que o conteudo foi retirado do Guia do Estudante, Atualidades Vestibular+Enem, 1° Semestre 2010. Estou fazendo um trabalho de geografia e necessito de imagens e mapas das páginas 27,31,32,33,37,38,39,40,41 e 42 do Guia do Estudante, Atualidades Vestibular+Enem, 1° Semestre 2010 sera que você poderia me ajudar ou indicar algum site onde contenha as imagens.
    Obr!

  13. rafaela darlen Says:

    a respeito do continente europeu,como se explica o conflito na irlanda do norte?

    • Conflito religioso desde o século VVII entre a maioria protestante e minoria separatista católica no território do Ulster*. Os protestantes concordam com o domínio britânico sobre o Ulster e a minoria católica luta pelo fim da dominação.
      No século XIX, o território irlandês foi integrado à Grã-Bretanha, mas devido ao surgimento do movimento nacionalista em 1922, a luta pelo fim do domínio britânico faz surgir o Estado Livre da Irlanda ou Eire.
      O Ulster continua sob o domínio britânico. Um acordo assinado em 1998 deu maior autonomia ao país.

      *província comandada pela Inglaterra, situada ao norte da Irlanda composta por 9 condados – 6 na Irlanda do Norte e 3 na Irlanda. Muitos definem Ulster como Irlanda do Norte, mas 3 condados desse território fazem parte da Irlanda.

  14. tiago de souza santos Says:

    valeu cara me ajudou muito para um trabalho

  15. Muito bom Vai me ajudar muito com meu trabalho, (:

  16. Você concorda que a África do Norte seja uma sub-região do mundo árabe?

  17. Ricardo Osnola Says:

    Ótimo texto, Marcos!
    Bela articulação e divisão dos contéudos. Estou fazendo um trabalho sobre o continente africano, focando nas riquezas minerais e suas consequências geopoliticas. Marcos, por favor, você poderia me passar algum site que falasse sobre a utilização e exploração dessas riquezas minerais, que pudessem apontar os problemas gerados por eles?
    Muito obrigado , e parabéns novamente pelo texto!

  18. continente africano Says:

    gostaria de 5 perguntas e resposta sobre o assunto continente africano o cenário político econômico e social da África Subsaariana.

  19. Pedro Coelho da Silva Says:

    Obrigado por partilharem assunto de primordial importância

  20. Pedro Coelho da Silva Says:

    Obrigado pela colaboração

  21. Andressa Gomes Says:

    Mt boom as informações, mt obg, so nao encontrei oq quiria q era : Os cinco paises d continente africano q mais sofrem com a miseria atualmente.

  22. simao andrade kit-carson Says:

    Gostei do artigo publicado e ficai a saber um pouco mais sobre os conflitos em áfrica. Sou angola,fiquei um pouco triste por que pouco ou nada falaram sobre o meu país. Obrigado em todo caso,força é o que lhes desejo na senda da divulgação das realidades de africa. Kit-carson.

    • Um prazer Kit-carson. As informações sobre a África são difíceis por aqui, mas mesmo assim catei texto sobre o assunto.
      Fique a vontade para escrever informações sobre seu país que publicamos aqui.
      Abraço,

  23. olha gostei muito pq eu tbm estou fazendo um trabalho de escola
    agora vai saber do jeito que o meu prof é

  24. nossa gostei muito foi muito util obrigado

  25. adoreei muito obrigada teu site é maravilhoro,voce é muito talentoso , deveria fazer de mais assustos .

  26. parabeeeens obrigada .

  27. Eu Queria muito saber o Resumo do ‘O Mundo africano’

  28. Olá gostei muito do teu blog eu estou fazendo um blog sobre a lei 10639 relacionada a geografia se tu quiser dar umas dicas agradeccemos.

  29. muitoo bom me ajudou muitooo com meu trabalho de geo obg

  30. eu queria saber sobre o q a onu está fazendo para melhorias no continente africano! é um trabalho mais atual mais naum rncontrei al certo sobre isso preciso de uma ajuda para um trabalho escolar!

  31. sera q posso fazer meu trbalho sobre os principais conflitos da africa e suas causas , sobre isso tudo q vc escreveu ai bjs espero a resposta.

  32. Renan Maximo Says:

    obrigado!!!!!1vou tirar um 10!!!valeu pela a ajuda!!!abraços

  33. andressa mathias Says:

    adoreei o site me ajudou muiiito *-*

  34. Muiito legal adorei o site

  35. adoreei o site achei tudo tomara que eu tire DEZ

  36. estou estudando para uma prova de geografia e as informaçoes foram muito uteis para meu estudo so espero agora fechar essa prova
    obrigadoo!!!!!

  37. vlw pow eu to estudando p/ uma prova daquelas de raxar acuca mais vcs me ajudaram muito c/ esses posts a entender um pouco mais sobre a realidade africana. vlw agora eu jah add esse site como um dos meus favoritos. bjs e ate a proxima prova.

  38. vlw me ajudou muito!!!!!!!!!!!!!!!!!!! bjos e ate mais

  39. QUESTÃO 4
    No norte da África, a escassez de água cria duas formas distintas de tensões, denotando a geopolítica da água. Associe as duas colunas relacionando o tipo de tensão internacional ou interna de acordo com a respectiva natureza da situação.
    Tipo de Tensão
    1. Tensão internacional.
    2. Tensão interna.
    Respectiva natureza da situação
    ( ) Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia usam reservas do lençol freático, tendo na Tunísia seu epicentro.
    ( ) Setores sociais e econômicos desenvolvem conflitos evidenciando o uso diferenciado e a disputa pela água.
    ( ) O setor hoteleiro oferece água em abundância aos turistas, enquanto a massa da população sofre a penúria.
    ( ) As agriculturas marroquina, tunisiana e argelina são acusadas de gastar água numa atividade de baixíssima remuneração.
    ( ) Egito e Sudão discutem o regime do Nilo e as formas de aproveitamento, gerando crises cíclicas de relacionamento.
    A seqüência correta dessa associação é

    A) 1,1,2,21. B) 1,2,2,2,1. C) 1,1,1,2,2. D) 1,2,2,1,1.

  40. Obrigada! adorei seu esclarecimento.

  41. Boa noite.
    Olá! Gosto muito dos seus textos. e já que você me ajudou na questão anterior será que pode me ajudar nesta também.

    As metrópoles são poderosos entroncamentos de redes diversificadas, tais como o mercado financeiro e as telecomunicações.

    São exemplos respectivos de redes formadas pelo mercado financeiro e telecomunicações

    A) Bolsa de Valores e Rede de TV.
    B) Internet e Hipermecado.
    C) Setor bancário e telefonia celular.
    D) Shoppings centers e TV a cabo.

    • Obrigado Izabella. A resposta é a letra A.

      • Boa tarde Professor.
        respondi a questão conforme seu ensinamento, porém. a resposta que eu obtive foi:
        I – Problemas e Perspectivas do Urbano Tema: 1 – O processo de urbanização contemporâneo: a cidade, a metrópole, o trabalho, o lazer e a cultura.
        Subtema: Não tem Tópico: 4 – Redes e região
        Habilidade: 4.1 – Reconhecer na hierarquia urbana as funções e centralidades das redes. Detalhamento: 4.1.1 – Reconhecer as relações das metrópoles com as cidades globais como poderosos entroncamentos de múltiplas redes, tais como o mercado financeiro e as telecomunicações.

        Autor: MÁRCIA RODRIGUES MARQUES
        Adaptado: Não

        As metrópoles são poderosos entroncamentos de redes diversificadas, tais como o mercado financeiro e as telecomunicações.

        São exemplos respectivos de redes formadas pelo mercado financeiro e telecomunicações

        A) Bolsa de Valores e Rede de TV.
        B) Internet e Hipermecado.
        C) Setor bancário e telefonia celular.
        D) Shoppings centers e TV a cabo.

        A. INCORRETA. A TV aberta representa telecomunicações. Bolsa de valores é correta para representar o setor financeiro e não telecomunicações.
        B. INCORRETA. Hipermercados fazem parte do mundo globalizado, mas representam o setor de comércio e não de mercado financeiro
        C. * CORRETA. Setor bancário está correto, pois representa um importante setor do mercado financeiro. Telefonia celular está correta, pois representa o setor de telecomunicações. Quanto maiores as cidades, maior a cobertura e número de serviços prestados de ambos serviços.
        D. INCORRETA. Shoppings centers exemplificam comércio e não mercado financeiro. Já TV a cabo poderia exemplificar as novas redes de telecomunicações.

        E agora o quem está certo. Por favor será que vc pode me ajudar?
        Obrigada Izabella

      • Izabella,
        Do jeito que você explicou cheguei a uma única conclusão: a questão está mal formulada.

        Explicando…
        O comando pede “exemplos respectivos de redes formadas pelo (1)mercado financeiro e (2)telecomunicações” [grifo nosso]

        Então você tem que responder ao que está grafado em (1) e (2) respectivamente já que as opções de gabarito também trazem dois exemplos cada. Neste caso, e a meu ver, entendendo setor bancário como setor do mercado financeiro, o gabarito é dúbio cabendo as letras A e C, por se tratarem do que se pede das redes respectivas.

        Espero ter ajudado!

  42. OI!
    Bom dia!
    Obrigada, Valeu mesmo..Adoro seu blog….com vc a gente aprende mais que na faculdade…

  43. Prof. Marcos Brandão solicito permissão para pesquisar temas em seu blogue e cita-los em um artigo no qual estou elaborando, sobre a fome mundial. Serão apenas alguns dados que estou pesquisando, que gostaria de citar á fonte, pois creio ser necessário para preservar a fonte do seu trabalho. Aguardo contato, cordialmente,Vilma Pereira

  44. OLÁ MARCOS, PARABÉNS PELO BELO TRABALHO.TEM AJUDADO MUITOS ESTUDANTES ASSIM COMO EU,FAÇO LICENCIATURA EM GEOGRAFIA E FIQUEI FELIZ POR CONHECER ESTE LOCAL E VOU VOLTAR VARIAS VEZES.BEIJOS

  45. josenilda evangelista Says:

    sou educadora e professora de geografia. Gostei muitíssimo da sua abordagem sobre este continente tão rico e cheio de grandes contrastes. Voltarei outras vezes para buscar informações !!! Um grande abraço!!!

    • Obrigado Josenilda! Um comentário feito por uma colega da geografia gera uma credibilidade cada vez maior para nosso site!!!
      A ideia central aqui é levar informação geográfica de qualidade e gratuita, principalmente para muitos dos nossos alunos que não podem comprar livros didáticos tão caros.
      Abraço!

  46. Ótimo texto, informações objetivas e com linguagem muito clara, adorei!

    Estou fazendo um trabalho sobre a “Tragédia da Aids” na África Subsaariana, gostaria de saber de existem interesses políticos nessa epidemia que agravam a situação?

    Obrigada,
    Thayne Moura

  47. adorei me ajudou muito na minha pesquisa esta de parabéns e continue assim abraço prof:

  48. muito obrigado por teu site me ajudou muito abraço

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