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Governo Barack Obama

Posted in Geopolítica, Governo norte americano with tags , , on 25 de outubro de 2009 by Marcos Brandão

MUDANÇA DE ESTILO

(Guia do Estudante, 2010, p. 57)

Barack Obama chega à Presidência dos EUA em meio a grandes dificuldades internas e externas, mas, à diferença de Bush, enfrenta os problemas com ênfase na diplomacia e na negociação

Barack obama

Seis meses depois da posse como presidente dos Estados Unidos (EUA), Barack Obama continua a impressionar plateias com um discurso vigoroso que fala em mudanças e em novas relações do país com as demais nações.

Expressões comuns durante o governo de George W. Bush (presidente de 2001 a 2009), como “guerra ao terror”, foram banidas do vocabulário presidencial, e há mais disposição para o diálogo com outros países. A mudança de estilo é inegável, mas a análise das ações efetivas mostra que, em muitos aspectos, as modificações são bem mais tímidas do que se previa.

Os analistas calculam que o presidente esteja enfrentando dificuldades enormes em seu início de governo. Além da grave crise econômica, precisa lidar simultane­amente com situações delicadas em várias partes do planeta, entre as quais o conflito que envolve Israel e os palestinos, as con­trovertidas eleições presidenciais no Irã, a pressão pelo fim do embargo a Cuba, o golpe em Honduras e os mísseis que a Coreia do Norte voltou a disparar.

Foi justamente na política externa que as modificações tiveram mais destaque. Mar­cado pelos atentados de 11 de setembro de 2001, Bush definiu-se como o “presidente da guerra”, e a alternativa militar estava sempre entre as opções de destaque para defender os interesses dos EUA no mundo.

Em nome desses mesmos interesses, Obama adotou outra estratégia, que enfa­tiza a diplomacia – inclusive em direção aos regimes que não têm a menor simpatia pelos EUA – e o multilateralismo, ou seja, a busca de acordos e parcerias com os países aliados para uma atuação conjunta.

A expressão mais repetida pelo presi­dente, dirigida tanto ao Irã quanto a Cuba, assim como ao “mundo muçulmano” em geral e à Federação Russa, é a de que seu governo deseja “um novo começo” nas rela­ções recíprocas. De forma significativa, ele

se dispôs a retomar a indicação de embaixa­dores norte-americanos na Venezuela e na Síria, cujos governos se opõem aos EUA. Na América Latina, iniciou uma aproximação com Cuba.

Domínio militar

Seria incorreto, porém, dizer que, em oposição a Bush, Obama seja o “presiden­te da paz”. Durante a sua campanha para presidente, ele prometeu que retiraria as tropas norte-americanas do Iraque até maio de 2010. No governo, porém, anun­ciou que manterá entre 35 mil e 50 mil soldados em território iraquiano até o fim de 2011. Essa decisão foi aplaudida pela oposição (Partido Republicano) e deixou incomodados vários dirigentes do Partido Democrata, o mesmo de Obama.

AfeganistãoTropas norteamericanas no Afeganistão. Fonte: http://www.enciclopedia.com.pt/…/AP2002-5412.jpg

Além disso, a retirada do Iraque será acompanhada do reforço de pelo menos 21 mil soldados norte-americanos no Afega­nistão, país que, como seu vizinho Paquistão, se tomou o centro da estratégia militar no novo governo. Em julho deste ano, os EUA iniciaram a maior ofensiva militar no Afe­ganistão desde que o país foi ocupado, em 2001.

Os gastos militares sob Obama irão até mesmo crescer um pouco. Na proposta de Orçamento de 3,55 trilhões de dólares que o presidente apresentou para o ano fiscal de 2010 (outubro de 2009 a setembro de 2010), o valor destinado à Defesa é de 664 bilhões de dólares, um aumento de 1,5% em relação ao orçamento anterior. O presidente deixou claro, em discurso pronunciado em Washington, em mar­ço: “Não tenham dúvidas, este país vai manter o seu domínio militar”.

Segundo o Instituto internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri), as despesas militares mundiais em 2008 totalizaram 1,46 trilhão de dólares, dos quais 607 bilhões de dólares foram gastos pelos norte-americanos.

Guantánamo

Uma das primeiras medidas anunciadas por Obama foi o fechamento, no prazo de um ano, da prisão na base militar de Guantánamo, em Cuba (veja mapa), para onde o gover­no Bush enviou centenas de prisioneiros acusados de ligação com o terrorismo. Essa diretriz se mantém vigente, mas, nos meses seguintes, outras iniciativas anunciadas nessa área acabaram sendo revertidas, deixando a sensação de que o combate ao terror não sofreu tantas mu­danças em relação ao governo anterior.

Mapa de Cuba

Mapa da ilha de Cuba com Guantanamo ao Sul. Fonte: www1.folha.com.br/…/20060802-mapadecuba.gif

Obama baniu a prática de tortura nos prisioneiros e, inicialmente, suspendeu as comissões militares encarregadas de julgar esses presos por fora do sistema judicial dos EUA. Ao fim de quatro me­ses, porém, anunciou que as comissões continuarão. Além disso, mantiveram-se os programas da CIA (agência de inteli­gência norte-americana) de transferência de presos para nações nas quais eles não possuem direitos legais e a detenção por tempo indeterminado, sem julgamento, de suspeitos de vinculação com o ter­rorismo. Todas essas medidas, que dão prosseguimento ao que Bush fez, foram duramente criticadas por entidades de defesa dos direitos humanos.

A própria sorte dos detidos é incerta – o grande problema para que seja cumprida a decisão de fechamento da prisão é saber para onde vão os cerca de 240 presos. A União Europeia dispôs-se a ajudar os EUA, recebendo alguns deles, com base em pedidos especiais do governo norte­americano. A ida de presos de Guantána­mo para prisões no interior do território norte-americano, por outro lado, sofre forte oposição de políticos, o que torna a solução do problema uma dificuldade a mais para o governo. Outro obstáculo é a resistência das cortes militares quanto à revisão dos procedimentos jurídicos adotados até agora.

Planos econômicos

Na política interna, Obama teve de se concentrar em iniciativas que procuram dar conta da grave crise econômica vi­vida pelos Estados Unidos (veja gráfico que segue), considerada a pior desde a Grande Depressão, em 1929. O governo norte­americano destinou vultosa soma para ajudar bancos, seguradoras e empresas de financiamento imobiliário. A primei­ra grande ação do novo governo foi um pacote de estímulo à economia, no valor de 787 bilhões de dólares, aprovado pelo Congresso em fevereiro.

Gráfico desemp EUA

O governo apresentou ainda um plano de salvamento dos bancos, com o objetivo de retirar cerca de 1 trilhão de dólares dos “ativos tóxicos” das instituições fi­nanceiras, permitindo que retomem a concessão de empréstimos. Ativos tóxicos são títulos que tinham como garantia, em geral, os negócios imobiliários que entraram em colapso em 2008. O nome deles é esse porque são papéis que perde­ram o valor e arrastaram quem os possui para a crise. Nessa mesma área, Obama propôs uma reformulação do mercado financeiro norte-americano, a mais ampla desde a década de 1930. Se essa proposta for aprovada pelo Congresso, serão au­mentados os poderes de fiscalização do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Um sério problema social é o das pes­soas que compraram casa por meio de financiamento e não conseguem mais pa­gar as prestações, por causa da elevação dos juros. As ações de despejo por falta de pagamento atingiram milhões de norte­americanos, desde 2008, e tornaram-se a causa de alguns dos episódios mais dra­máticos da crise, com cenas de famílias e todos os seus pertencentes jogados na rua, em frente à residência vazia.

Pressionado pela amplitude do proble­ma social, o governo anunciou medidas de refinanciamento dos empréstimos imobi­liários, com o objetivo de reduzir o valor das prestações e tentar deter os despejos. Analistas afirmam, contudo, que as medi­das não tiveram impacto significativo. Em abril deste ano, o número de notificações de despejo subiu 32%, em comparação com o mesmo mês de 2008.

Outra iniciativa social, mais abrangen­te, é a proposta de gastar 634 bilhões de dólares, no decorrer de 10 anos, para uma ampla reforma do sistema de saúde dos EUA. Essa era uma das principais bandei­ras da campanha eleitoral de Obama.

O projeto é eliminar algumas das deduções dos impostos dos mais ricos, aprova­das durante o governo de George W Bush, para levantar os recursos necessários à reforma e criar um fundo de saúde pública de acesso universal. Estima-se que 47 milhões de norte-americanos não tenham acesso a nenhum tipo de seguro-saúde.

Intervenção do Estado

A crise econômica provocou uma inter­venção inédita do Estado na economia nor­te-americana. A ajuda maciça a empresas teve início no fim do governo Bush. Obama seguiu a mesma linha, e o resultado é que o governo se tornou grande acionista de bancos, como o Citigroup, e de companhias automobilísticas, como a GM e a Chrysler. As duas pediram concordata em razão de dificuldades financeiras. Obama apresen­tou várias exigências para sua recuperação, que abrangem um corte severo de custos e de empregados, com o fechamento de fábricas. Além disso, o próprio sindicato dos trabalhadores automobilísticos (cuja sigla é UAW) foi chamado pelo governo a colaborar, investindo parte do fundo de pensão dos empregados na compra de ações das empresas e aceitando a redução de salários e benefícios.

Sede da GM em Detroit, Michigan, EUA.

Sede da GM em Detroit, Michigan, EUA.

Muitos críticos dizem que o governo Oba­ma promoveu a estatização dessas compa­nhias, mas essa avaliação não procede. Para efeito de comparação, vemos que alguns governos de esquerda da América Latina, como o de Hugo Chávez, da Venezuela, e o de Evo Morales, da Bolívia, promoveram a estatização de empresas multinacionais que atuavam em setores estratégicos da econo­mia, como os de petróleo, gás e telefonia. O argumento para essa ação é a necessidade de que a gestão de recursos do país passe permanentemente para as mãos do Estado. No caso dos EUA, nem Bush nem Obama defendem isso – a intervenção busca sanear as empresas, para torná-las novamente lu­crativas e devolvê-las ao mercado.

O próprio Obama, em abril, afirmou: “Eu não quero dirigir empresas de automóveis, não quero controlar bancos. Já tenho de controlar duas guerras. Tenho mais do que o suficiente para fazer. Portanto, quan­to antes sairmos desse negócio, melhor. Vivemos circunstâncias únicas. Havia o potencial colapso do sistema financeiro, que teria dizimado a nossa economia, portanto tivemos de intervir”.

De todo modo, a iniciativa de ajuda às empresas e bancos é muito criticada por parcela considerável da população norte­americana, para a qual o dinheiro públi­co está sendo investido na solução dos problemas de banqueiros e de grandes empresários falidos, enquanto milhões de pessoas comuns perdem o emprego e não têm auxílio equivalente.

Desde que os EUA entraram oficialmente em recessão, em dezembro de 2007, até junho de 2009, 6,5 milhões de norte-ame­ricanos perderam o emprego. O índice de desemprego atingiu, em junho, a marca de 9,5%, elevando o total de desempregados a 14,7 milhões de pessoas.